25.7.09

Primeiras frases de livros que nunca escreverei II

Abandonei o relógio faz tempo. Só servia para confundir o meu tempo.

23.7.09

Primeiras frases de livros que nunca escreverei I

Como eu sou muitas, a sala se encheu de mim. Tive que sair antes que todas elas me percebessem.

21.7.09

Candelária - 16 anos depois

Artigo escrito pela Yvonne Bezerra de Mello, minha mãe, coordenadora do Projeto Uerê. Ela cuidava do grupo de meninos de rua na Candelária, quando aconteceu a chacina em 20 de julho de 1993. Quando falo 'cuidar', não quero dizer 'fazer caridade'. O trabalho dela era puramente pedagógico, ensinava as crianças a ler e escrever na própria rua, e é claro que o ensino não sendo só a parte da 'aula', ela acabou descobrindo a razão pela qual eles estavam na rua, e tomou para si a causa de defesa dos direitos da criança e adolescente nas ruas, e por conseguinte, no Brasil.

Dezesseis anos depois, o projeto que ela criou e dirige, Projeto Uerê, dá ensino supra-escolar para 500 crianças na Favela da Maré, e o método de ensino criado por ela, a metodologia Uerê-Mello, já está sendo implementada pelo Estado do Rio de Janeiro como pedagogia para alunos que estudam em zonas de risco. A metodologia é focada em crianças e adolescentes que demonstram problemas de aprendizado em zonas de risco, traumas decorrentes da exposição à violência. A metodologia é inteiramente voltada para a recuperação da habilidade de aprender e busca reduzir o abismo intelectual que separa as classes sociais no Brasil. Se a mudança tiver que começar por algum lugar, que comece pelo intelecto - e depois será mais fácil derrubar as outras barreiras que um jovem pobre tem de enfrentar na sociedade brasileira.

O artigo abaixo foi enviado para a seção de opinião de O Globo, a ser publicado em breve.

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21 de julho de 2009

Não aprendemos nada!

Yvonne Bezerra de Mello, Coordenadora do Projeto Uerê

Há dezesseis anos atrás o mundo se estarreceu diante do assassinato de crianças e adolescentes no centro da cidade do Rio de Janeiro. O Brasil, naquela ocasião, bem que tentou explicar porque o Estatuto da Criança e do Adolescente não foi implementado de fato, porque crianças são abandonadas e negligenciadas, porque a corrupção endêmica e epidêmica continuava nas suas instituições e porque não se investia corretamente em educação e saúde. Discutiu-se muito o futuro das novas gerações e de uma nova consciência cívica, um novo procedimento responsável e a restauração ética dos poderes constituídos. Pensei que finalmente a dívida social e moral do Brasil com seus cidadãos pudesse ser resgatada. Pensei que finalmente a discussão em torno do assassinato dos meninos nos levasse a aprimorar um processo de democracia e de liberdade consciente de todos os brasileiros frente à aquele trágico acontecimento.

Pensei e desejei que assim fosse. Não foi. Apagados os holofotes da mídia nacional e internacional, esfriados os acalorados debates políticos com explicações vazias sobre o não cumprimento das leis, a vida da cidade voltou ao normal com suas mazelas, com a continuidade de hordas de crianças nas ruas, com a violência aumentando, com os cidadãos cada vez mais sitiados e amedrontados. Fico pensando e tentando achar uma explicação que justifique a razão desse povo ordeiro organizado e trabalhador não sair às ruas e exigir uma mudança na estrutura da sociedade brasileira.

Os gritos das organizações em defesa dos direitos do homem parecem ladainhas sem fim, gente percorrendo os mesmos caminhos nas passeatas em prol da vida, sempre as mesmas ao longo dos anos, os mesmos cartazes, as mesmas frases. Eu tenho a sensação de que paramos no espaço, perdidos nos traumas do cotidiano que nos fazem perder a noção do tempo. Só acordamos dessa letargia quando um cidadão brasileiro perde a sua vida com as balas perdidas, com os autos de resistência sem explicação lógica, com a dor das famílias atônitas com a violência gratuita fruto da ineficácia das políticas públicas.

Para mim a morte daquelas crianças não foi em vão. Na noite da chacina, com todas elas à minha volta tomei a decisão de dedicar meus dias à procura de soluções para a infância brasileira. E assim nasceu o Projeto Uerê e sua metodologia, a Uerê-Mello, especializada em crianças com problemas de aprendizado devido a violência. Eu abracei, naquela praça ao lado dos cadáveres, a causa de transformar esses pequenos seres com tantos problemas em grandes brasileiros eliminando as barreiras intelectuais que os separam das classes mais favorecidas.

O Brasil avançou um pouco na erradicação da pobreza porém continua engatinhando na verdadeira igualdade entre homens que é a qualidade da informação igual para todos. É aí que reside a nossa maior pobreza, é aí onde as nossas diferenças são mais gritantes, é aí onde reside o afunilamento para o nosso desenvolvimento atual e no futuro. As crianças nas ruas e aquelas vivendo nos guetos das cidades são o lado ainda obscuro da nossa sociedade. Os toleramos mas ainda não os queremos ver. É o lado doente do Brasil, doente de fato com uma população infantil e juvenil desenvolvendo doenças psicossomáticas importantes que se traduzem em problemas de aprendizado e pobre desempenho escolar que vão afetar toda a sua futura vida de trabalho.

Dezesseis anos se passaram desde a Chacina da Candelária e aquela cena dos meninos mortos em frente à Igreja ainda não se apagou da minha memória. Ainda não perdi totalmente a esperança de ver um país se educando, todos iguais, com mesmas oportunidades e com a mesma informação. Sem esse ajuste estrutural não teremos desenvolvimento social de verdade.

Mas como não aprendemos nada, mais uma vez como todos os anos faremos as mesmas coisas, reivindicaremos as mesmas políticas públicas que não saem das boas intenções, faremos as mesmas reflexões rápidas depois de ouvir a mídia do dia achando que isso basta para se ter uma sociedade mais justa. Não basta!

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16.7.09

A coisa está realmente ficando preta

Sou assinante de muitas listas por email, além das newsletters das associações profissionais a que pertenço (não são muitas). Mas eis os efeitos da crise sobre as universidades (americanas): Várias estão vendendo ou leiloando seus acervos em museus para contrabalancear as perdas financeiras. Em tempos de crise, a arte salva - mas nem sempre como imaginamos.

"Dear Ms. Isabel Löfgren, M.F.A.,

Several university art museums or their school administrations have recently sold, or have attempted to sell, artworks and objects in their collections to offset operating costs. In response to this, CAA has joined a task force supporting the educational importance of preserving collections at university museums and galleries. The task force—which includes representatives from the American Association of Museums, the Association of Art Museum Directors, the Association of College and University Museums and Galleries, and the Samuel H. Kress Foundation—has established a two-pronged effort: 1) to recognize museums as integral educational resources in the university accreditation process; and 2) to heighten public awareness of the educational value of art museum collections.

Members of the task force are meeting with accreditation organizations throughout the country to enlist their support for the recognition of art museums as integral educational resources.

A petition has been prepared that reaffirms the integrity and value of university and college museums. (...)"



15.7.09

O príncipe

Parece que um príncipe me deu um beijinho: Book of Hours acorda depois de 14,540 horas dormindo.

É proibido comprar

Não posto nada desde antes de 2008, ano de crise, ano da minha crise. Mas nenhuma crise foi para mim pior do que 2007, mas esse já passou faz tempo. 2009 continua com crise, mas não para mim. Agora que todo mundo ficou pobre, só me resta rir dessa palhaçada financeira que deu problema pra todo mundo.

Artista vive em crise financeira constante!

E por esse gostinho de não-crise, continuo trabalhando em Singapura (onde é isso mesmo ,heim?) onde não há crise porque o governo censurou (aparentemente os índices de declínio das bolsas pareciam pornográficos demais e foram detidos na imigração).

Aqui também teoricamente não se fala de religião (pra ninguém xingar o(s) deus(es) dos outros) ou política (numa utopia, discutir política pra que, pra derrubar ditador? tão achando que isso aqui é a tailândia?), mas praticamente só se fala de comida e ir ao shopping (parece São Paulo). Porque consumir é preciso, para comer e para fazer o dinheiro circular - o que seria da cosmologia singapuriana , se além de não poder mascar chiclete, fosse proibido comprar?

22.7.08

Janela da Alma

Queridos amigos blogueiros,

Gostaria de pedir uma ajuda. Não sei se anunciei aqui oficialmente, mas em 2007 virei "Lecturer", ou, Professora, de Communication Design no Lasalle College of the Arts em Singapura. É uma tremenda oportunidade, e estou em cargo de delinear todo o programa de história e teoria da comunicação visual. Logo eu, que reclamei tanto de escrever tese de mestrado, e que falei tão mal do Deleuze há meses atrás! Pois é, e agora que eu estou escrevendo tese de doutorado (porque sofrimento acadêmico eu gosto e é bom), estou in love with Deleuze. Não me critiquem, é que eu sou teoricamente volúvel mesmo - a cada vez que leio um autor novo, me entrego de corpo e alma, sem o menor respeito com todos os outros a quem me entreguei antes. Ainda bem que estão todos os mortos!

Bem, a vida tem suas ironias. Tenho que agora ensinar isso tudo para 300 alunos de Singapura e de alhures.

Como parte de uma aula sobre o olhar, gostaria de mostrar o filme/documentário "Janela da Alma". Alguém tem cópia legendada? É uma das melhores fontes que eu encontrei sobre o olhar. Alguém tem link? Pode rippar de algum DVD?

Agradeço.

3.8.07

New Pics


stop
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My new Singapore....I guess I will be stopping here for a while now.

Beijos!

17.5.07

Crítica do Fake

Eu sei que vai tarde, com uns meses de defasagem, mas achei esse texto tão bom! É sobre a exposição FAKE que idealizei e produzi com o meu coletivo DOC em novembro do ano passado no Rio. É de autoria da Elvira Vigna que é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

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Fake

Acho que ninguém mais pensa a sério em conceitos como verdade, pureza, início. Daí a curiosidade com uma exposição chamada Fake, do Grupo DOC, na Galeria 90. Se existe um fake, é porque existe alguma coisa que não seja.

Fake Fake Fake

Já o papelzinho de apresentação mostra que não é por aí. De Nietzsche a Baudrillard, passando pelo Aurélio com suas definições de pastiche, plágio, mimese, paródia etc., o texto deixa claro que o fake apresentado reivindica adequadamente o título de verdadeiro, o verdadeiro hoje só podendo ser o fake assumido.

Resta um aspecto que tem mais a ver com o vocabulário literário do que com o das artes visuais e que é o da metáfora.

A metáfora traz uma questão de complementaridade, seja como paralelismo ou oposição, entre os campos diegético e extradiegético.

(Agravada aqui pela virtualidade de um e outro: a exposição é de fotos, vídeos.)

O caso é que o Fake do Grupo DOC tem o fake e seu abismo de espelhos, e tem também um desejo de referência, ainda que metafórica, já que referência “toute courte” é uma impossibilidade filosófica. Há um universo, se não verdadeiro, puro ou inicial, pelo menos posto em paralelo - e incessantemente reabsorvido. E isso dá uma impressão de unidade composta por diferenças - que é a própria definição do que seja uma metáfora.

Assim é nas notas de dinheiro com ídolos pop, na cabeça romana feita de espuma, ou no irônico vídeo sobre história da arte.

Mas metáforas e outras construções de linguagem se completam na cabeça de quem as vê/lê. E, para isso, é preciso supor uma cultura uniformizada, comum, que compartilhe valores e símbolos, o que é mais uma dificuldade em época de pulverização de tribos, de agudo ressurgimento de grupos.

Existe um outro tipo de conceituação de construções artísticas, sem referentes ou metáforas. É o orgânico. Nasceu no período romântico do Século XIX mas o exemplo mais citado é o de James Joyce. O artista partiria de um núcleo - fragmento de memória ou experiência - que incha e cresce segundo critérios estéticos, como o som das palavras ou a textura da tinta. O defeito dessa teoria é a idéia de que há um conteúdo inicial sem forma (o fragmento de memória) que conquistará sua forma à medida que se afaste desse conteúdo inicial. Uma tautologia das boas, ausente, que bom, dessa exposição.

Então, recapitulando: o fake é fake assumido, em um mundo sem referências, onde também não há organicidades fechadas em suas peles; esse fake usa a metáfora como um simulacro de exterioridade, sendo que metáforas, infelizmente, também são uma construção e, pior, sujeitas a um compartilhamento cultural cada vez mais raro. O humor - porque tudo isso é feito com humor - se dá no nanossegundo em que você percebe isso.

E aí, que remédio, só rindo.

O que prova a eficácia do grupo.

6.5.07

E foi só....

E foi só eu botar uma foto com uma moça de bikini que a galera saiu clicando direto no meu Flickr. Vocês são mesmos uns....ah deixa pra lá.

Já entendi que tem que mostrar carne e pele pra vocês se interessarem.

o IDCard ainda vive!

Este é um projeto coletivo que iniciei em 2003, para coletar fotos de identidade da galera do Fotolog.

O projeto ainda está vivo. Se você ainda tem a sua conta no Fotolog, escaneia a foto rapidinho, e manda!

Obrigada.

5.5.07

Constelar

Conheço o astrólogo Dimitri Camiloto desde 2002 ( ele namorava uma amiga de uma amiga de um amigo e eu ainda era casada com o primeiro marido) quando resolvi fazer o meu mapa astral. Semana passada, voltei lá, 5 anos depois, para obter uma leitura melhor ainda, pois as estrelas me estão mais favoráveis hoje. Como lá em Singapura onde eu moro não tem essas coisas de pai-de-santo nem de astrologia que falem o meu idioma (sim, como boa carioca faço todos os oráculos e previsões das conjunturas), resolvi querer saber de tudo em carioquês mesmo e vindo de pessoas muito queridas. A próxima consulta será só no ano que vem quando voltar de férias do meu novo emprego lá em Singa.

Pois eis que Dimitri além de astrólogo, também é antropólogo. Recentemente criou o blog CONSTELAR onde ele bota as duas coisas para funcionar: fala das conjunturas astrológicos de fatos relevantes na sociedade e política contemporâneas.

Vocês por acaso sabiam que Saturno em Leão provocou os últimos 2 anos de tensão para o governo israelense?

Ou que "Em se tratando da França, a conjunção entre Lua e Vênus ocorrida no equinócio da primavera cai na casa V [21/3/2007, 00:56, Paris], colocando as mulheres em evidência e com boas chances de cativar a população. A reta final e o primeiro turno das eleições francesas tiveram o Sol transitando pela conjunção Lua-Vênus e colocaram Ségolène Royal no segundo turno, contra o líder Nicolas Sarkhozy"? Amanhã comprovaremos...

O blog é detalhadíssimo: vem com o mapa astral desses eventos, com marcações, observações, interpretações, o que para os aficionados deve ser uma delícia. Fora isso, há uma seção de atualizações no site que anuncia o 11o. Congresso de Astrologia na América Latina, e curiosidades como a descoberta de que o planeta Éris é o verdadeiro regente de Touro.

Depois da consulta, o Dimi falou que estava interessadíssimo na China e tudo o que acontece no Oriente e comentei que a queda da bolsa de Pequim em fevereiro ocorreu exatamente durante o ano novo lunar chinês, na entrada do ano do porco.

2.5.07

Novas fotos no Flickr


Rio de Janeiro
Originally uploaded by flowerbomb.
Depois da Ásia, Brasil.

Daqui a alguns dias estarei rumo à Escandinávia...

29.4.07

Elogio a Alex Castro

Este é um post de retribuição à bela homenagem que o meu melhor amigo, Alex Castro, vulgo LLL, escreveu sobre mim. Fico lisongeada.

E aqui vai uma resposta.

Ninguém me entende mais do que o Alexandre. Nos conhecemos na Escola Americana há meia vida atrás, parece que foi ontem.

Enquanto nossos amigos eram riquinhos (na época também éramos, hoje somos novos-pobres) e só pensavam em carreiras no mercado financeiro, nós dois bravamente queríamos ser artistas. Ele, editor do jornalzinho da EA, o Binóculo, e eu, a ilustradora. Ele, escritor desde pequenininho, e eu já metendo a mão nas tintas. Fomos juntos à Bolívia e ao Chile para fazer uma coisa bem nerd, mas muito divertida: participar do Knowledge Bowl, jogo de perguntas e respostas de cultura geral. Metidos-pra-caramba. Na Bolívia, ficamos desfalcados de um participante e contratamos um japonês anti-social pra resolver as perguntas de matemática além de botarmos um dinossauro de pelúcia para as perguntas de ciência. Claro que chegamos em último lugar, mas em grande estilo.

Já na faculdade, eu nos EUA e ele no Brasil, um dia recebi uma carta muito triste, que dividiu a turma de amigos para sempre. Alex me mandou uma lista enorme de todas as idiotices de adolescente que eu tinha feito, e na sua habilidade com palavras, fiquei desconcertada sem saber o que fazer. O resto da turma que também tinha lido a carta , ironicamente, aproveitou para brigar comigo também. Não entendi aquilo muito bem, foi difícil, mas mereci de alguma forma. Dois anos depois fizemos as pazes após horas de conversas, eu entendi os seus motivos e ele também entendeu os meus. Desde então somos melhores amigos. Mas com o resto da turma não falo há um década. Alex, aliás, acabou me fazendo um enorme favor. Triunfamos.

Vida vai, vida vem, retorno ao Brasil depois de uma temporada nos EUA e Alex era meu único amigo. Encaramos a bolha da Internet juntos e até hoje formamos uma bela parceria. Sempre que precisava de uma terceira opinião no Sobresites, eu ia lá dar uma força. Sempre que alguém precisava de um redator profissa, indicava ele. Até que, depois de nossas falidas e breves incursões pontocom, Alex teve a brilhante idéia da Usabilidade para podermos nos alimentar sem ter que abrir daquilo que realmente importa: a arte. E assim foi.

Claro que eu fui sempre umas das primeiras leitoras de todos os contos, e sempre disse o que eu achava. Se estava ruim ou chato eu dizia na lata, pois a primeira intuição é o que conta. Fiz por amizade, claro, mas também por princípio. Não vou deixar um amigo meu com um trabalho meia-bomba. Se importar com alguém é também se importar pelo seu trabalho. Se eu souber como consertar ou melhorar, eu falo e pronto. Eu estava detestando o Mulher de Um Homem Só...Alex não tinha decidido a voz do livro. Depois de terminado, dei uma brochada no final....porque raios a Júlia era artista? Aquilo tinha que ser relevante... Na arte é preciso justificar nossas escolhas...Eu sempre achei a arte é um processo colaborativo e lindo. Talentos têm que ser alimentados (literal e figurativamente). E quero que todo mundo também seja sincero comigo.

Casamos e nos descasamos e nos consolamos. Nossos relacionamentos falharam porque nossos parceiros eram incorrigíveis, e nós, sempre tentando segurar a onda. Claro que falhamos também, mas uma coisa é certa: tanto eu quanto ele vivemos os casamentos intensamente, "tudo o tempo todo". Nada como um amigo homem para me fazer entender o que se passa na cabeça de um bípede do tipo masculino. (Pra quem tem alguma dúvida, tenho os pés grandes, ossudos e feios, e também sou branca demais para o seu gosto. Eu acho que ele come carboidrato demais, e sempre que passo fim-de-semana com ele, acabo engordando 2 kg. Não daria certo nunca, ele é muito fresco e ainda é dono de um poodle infernal! Argh!)

Em inícios de 2003, Alex encontrava-se numa crise criativa. Estava trabalhando muito, levando o casamento à frente, e sem ânimo de escrever. Perguntei o que tinha acontecido, e percebi que o problema era disciplinar e que também precisava de atenção, de público, de troca. Sugeri que abrisse o blog para forçá-lo a escrever diariamente, mas ele resisitiu dizendo, como sempre, "que coisa ridícula!". Olha só no que deu. Esse blog até rendeu um mestrado nos EUA, mil mulheres, fãs, viagens e mais forro para os futuros romances.

Alex me educa. Tudo o que sei sobre literatura, pés, e casas de swing devo a ele.

Sempre que nos vemos, fazemos o clássico: andar pelo Centro do Rio, na Lapa ou qualquer outro lugar, por um dia inteiro, sentamos em uma mesa de café, olhamos a cidade e falamos sobre tudo.

E quando estou lá em Singapura, meio de saco cheio dos chineses ou do meu gringo, basta abrir o LLL "for a sense of home". Thanks for being my home.

17.4.07

Anônimo, porém legítimo

“É arte ou não é?”
- Chacricha, post-mortem

"Digital Stadium" é um programa de televisão (...) cujo objetivo é um ser uma revista de talentos e inovação em imagens computadorizadas, mostrando o que é considerado o melhor em uma forma de arte em constante mutação.”

Nem todo artista digital se conforma com a anonimidade da rede, e até se esconde atrás de uma farsa para atingir qualquer grau de legitimidade e reconhecimento. Um programa de TV da rede japonesa NHK chamado “Digital Stadium”, que convida o público a submeter obras digitais, e fomenta e descobre muitos jovens talentos promissores” , mostrava dois jovens apresentadores com um “artista digital” convidado a apresentar sua obra digital para os telespectadores.

A obra do primeiro artista convidado era uma animação interativa que exibia o desenho de uma figura cujo nariz crescia de acordo com a intensidade e volume do som cantarolado por um coral de 50 participantes presentes no palco. A intenção da artista era criar uma obra de arte interatva que reagisse às vozes do coral, mas o resultado era cômico, beirando o ridículo. Para complementar a performance, os apresentadores chamaram dois “curadores” ao palco para avaliar a obra com comentários e críticas de lugar-comum, elogios, adjetivando a obra como “interessante e inspiradora”.

O segundo participante era um homem de 30 anos vestindo um uniforme escolar, um símbolo de fetiche na cultura japonesa, e uma mochila com um monitor de com uma câmera na mão. A imagem do vídeo era uma cena de alunos reais fazendo chacota do seu estranho aparato televisivo, vista nas suas costas. Na câmera, a filmagem de um novo pequeno poema filmado, geralmente vídeos que registram a reação de estranhos à estranha instalação.

O programa representa um oportunismo da televisão na cooptação de algo que “está na moda”. A presença de “curadores profissionais” que “aconselham, comentam e criticam as obras digitais submetidas ao programa” é significativa para dar uma chancela de seriedade ao programa, mas em nenhum momento a identidade desses curadores é revelada. Os artistas são anônimos e amadores, mas a avaliação de um especialista do sistema de arte, neste caso, é mais importante do que a audiência do programa. Alguém tinha que dar o aval para que a obra fosse levada a sério perante o sistema, da superestrutura institucional da cultura. O programa de TV propôs uma inversão da relação entre o centro e a periferia: o sistema de superestrutura da cultura representado em um sistema periférico da comunicação de massa, banal.

O programa, ao final, é refrescante porque mostra que a arte, sob qualquer forma, não é apenas tema para especialistas e nem deve ser “contida” dentro de museus ou lugares especializados de acesso – a arte é do povo e como Joseph Beuys disse, “cada homem é um artista.” Mas a ironia está no fato que mesmo assim, eram necessários os dois curadores.

O formato quase circense do programa de televisão, quando visto como um modo de representação, parece uma crítica ao sistema de arte e dos seus sistemas de legitimação através de curadorias e concursos. Ele põe em evidência a cultura do espetáculo em torno do zeitgeist das mídias digitais levado ao extremo, como em um programa de auditório, uma espécie de Chacrinha da arte digital. Poderíamos até imaginar o Velho Guerreiro perguntando ao seu público exultante: “É arte ou não é?” (e jogando um bacalhau ao mesmo tempo.)

“Na era digital, o computador se tornou numa mídia essencial de expressão:
É uma ferramenta para manifestar nossos pensamentos e sentimentos. Talvez o que nos espera é uma Utopia luminosa, ou uma distopia, onde nosso mundo é governado por máquinas".