Uma das minhas sub-profissões é ser assistente de artista. Sempre pensei que, por os artistas brasileiros serem meio pobres, ser assistente de artista é coisa de artista americano que é financiado pelo Estado.
Fui parar logo num bico com um artista ex-guerrilheiro pós-acadêmico que queria mais era ser um heremita na montanha, como um Cézanne no fim da vida, pintando a mesma montanha por anos a fio e revolucionando a arte com alguns poucos textos decisivos. Este quase-heremita tem um outro assistente que é marxista e militante pelo PSTU. E eu ali, mulher e neo-libertária social-democrata feminista sueca, tentando entender porque um foi à guerrilha durante a ditadura (e preso, torturado) e porque o outro milita na extrema esquerda nos anos 2000 em plena era Lula, e como isso converge na arte de ambos. E como as minhas crenças não convergem na minha própria arte.
O confronto político é inevitável, porque estes 2 outros artistas (o velho e o novo) aliam a política à própria vida e por consequencia lógica, à própria arte. Enquanto eu fico nos meus questionamentos pessoais desenhando freneticamente no meu Book of Hours (sketchbook) como uma adolescente escreve na sua agenda, o artista maduro fica relembrando os fatos que o levaram a ser um combatente e uma vítima do autoritarismo e o artista novo alimenta um desejo insaciável de enxergar o mundo por um prisma mais igualitário.
Eu fico calada diante dessas conversas, espremida num canto, remoendo minha falta de crença na ordem do mundo e em como, efetivamente, só participo para alimentar o capitalismo e a cultura de consumo no mundo, sendo eu uma executiva mercenária e perversa (uma das minhas múltiplas personalidades/bicos) com uma educação artística de elite, mas tentando transcender isso a todo custo com minha arte, ou através do "ser" artista, mas não sabendo exatamente como. O que dizer? Como dizê-lo? Como enxergar as estruturas invisíveis no meio de tanta informação e como subverter seus significados? O que selecionar? O que defender/rejeitar?
Numa das inúmeras conversas dentro da pequena cobertura que abriga o atelier do quase-heremita, tornei isso público aos outros 2, e a resposta do mestre foi decisiva. "O seu único compromisso e engajamento deve ser com sua própria sintaxe e com a crença no seu próprio trabalho. Você é quem decide se é artista ou não. Você é quem estabelece os rumos para sua arte. O sistema não vai legitimar nada se você não tiver obsessão pelo que acredita." Vindo de um ex-guerrilheiro com uma bala ainda alojada na cabeça, isso é uma lição e tanto.
Decidir ser artista, uma profissional da transgressão, em um tempo em que o mercado e a tecnologia definem o rumo das pessoas e marginalizam todo o resto e põem à margem tudo o que não gera lucro. Isto em si já constitui um ato político, diz ele.
6.8.04
Wittgen...who?
Lendo filosofia. Wittgenstein, ininteligível. Ele diz:
"O significado é o uso"
e eu respondo:
se não tem uso tem significado?
"O significado é o uso"
e eu respondo:
se não tem uso tem significado?
4.8.04
A roda gira
Há tempos venho tentando encontrar artistas que mantém blogs por um simples desejo de encontrar irmãos ou correligionários na rede, saber que não estou falando no escuro. Já sabia do blog do Dudi Maia Rosa, (que aliás manda muito bem, expondo pinturas lindas em galeria muito fera agora em SP), mas aos poucos vou descobrindo outros. Não são muitos, infelizmente, mas continuo aqui, firme e forte até porque o meu trabalho em rede e na rede ganha força ( e participantes) a cada dia. Mesmo assim, o caderninho de desenho, o famigerado Book of Hours, continua dentro da bolsa pronto para ser acionado a qualquer momento, em qualquer lugar. Aliás não tenho postado desenho nenhum ultimamente. Vamos mudar essa situação.
Mas hoje tive a grata surpresa de conhecer, assim por acaso, a Ana Lúcia que muito gentilmente citou o Book of Hours, o Loba Má, e o ID Card no seu post sobre Blogs de Artistas. Como ela é historiadora da arte, ela é obviamente muito mais eloquente do que eu.
Um trecho:
"Há apenas alguns anos atrás o ateliê de um artista era um espaço cercado de mistério, quase sagrado, mesmo para aqueles que se diziam mais abertos. O ateliê era um lugar de encontros sim. Mas de encontros com o marchand, com o galerista, com outros artistas. Para alguns se tratava também de um lugar para ensinar, espaço freqüentado por alguns alunos.
Há uns anos atrás a preparação de uma exposição era cercada de mistério. Os meses de trabalho suado eram involtos no isolamento quase forçado. Para aqueles artistas que costumavam fotografar as diferentes etapas do trabalho, o processo de criação ficava registrado e na maior parte das vezes ia parar esquecido dentro de uma gaveta. Pois os blogs, esses diários virtuais que associam texto e imagem, vieram para mudar essa situação."
Falou e disse.
Mas hoje tive a grata surpresa de conhecer, assim por acaso, a Ana Lúcia que muito gentilmente citou o Book of Hours, o Loba Má, e o ID Card no seu post sobre Blogs de Artistas. Como ela é historiadora da arte, ela é obviamente muito mais eloquente do que eu.
Um trecho:
"Há apenas alguns anos atrás o ateliê de um artista era um espaço cercado de mistério, quase sagrado, mesmo para aqueles que se diziam mais abertos. O ateliê era um lugar de encontros sim. Mas de encontros com o marchand, com o galerista, com outros artistas. Para alguns se tratava também de um lugar para ensinar, espaço freqüentado por alguns alunos.
Há uns anos atrás a preparação de uma exposição era cercada de mistério. Os meses de trabalho suado eram involtos no isolamento quase forçado. Para aqueles artistas que costumavam fotografar as diferentes etapas do trabalho, o processo de criação ficava registrado e na maior parte das vezes ia parar esquecido dentro de uma gaveta. Pois os blogs, esses diários virtuais que associam texto e imagem, vieram para mudar essa situação."
Falou e disse.
2.8.04
Intimidades publicas
Nada de programações mirabolantes em flash, video-clipes virtuais ou códigos semióticos em C++. Arte em Rede não precisa ser coisa de nerd.
Arte interativa pode ser tão simples, só o que você precisa é um ponto de contato entre o usuário e a sua idéia que vem em formato de um site. Você, como artista, só precisa bolar um recipiente interessante e deixa que a galera vai enchendo com as informações delas.
Este projeto Real Love Stories é assim. Você submete a sua história de amor via formulário, e a artista exibirá essas declarações de amor numa rua em Long Beach na California. Um projeto similar, também usando o amor como assunto, foi um projeto no Japão em que as mensagens eram exibidas via raio laser no céu à noite, na cidade de Yokohama. Bastava mandar a mensagem via o site para a pessoa a quem você quer fazer uma declaração de amor. O destinatário receberia um email com essa declaração na mesma hora da transmissão da sua mensagem no céu.
Ainda na questão do amor. O primeiro projeto desse tipo que eu vi, pré-internet, foi em Paris em que a artista (não me lembro o nome) projetava, a partir de um bateau-mouche sobre o Sena, anúncios de jornais pessoais (do tipo mulher jovem solteira procura...) sobre as margens do rio. Muito lindo o efeito, mas não só isso, o tema em questão é o espaço privado versus espaço público, leia-se, o espaço interno das emoções desnudadas no espaço público da cidade.
É esse tipo de coisa que estou buscando....
Participe do meu projeto em rede: IDCard - poste sua foto de identidade, ou de passaporte ou de qualquer outro documento.
Se você é membro do fotolog, é só clicar direto e postar. Se você não é membro do fotolog, é só enviar a foto para idcard_project@yahoo.com.
Arte interativa pode ser tão simples, só o que você precisa é um ponto de contato entre o usuário e a sua idéia que vem em formato de um site. Você, como artista, só precisa bolar um recipiente interessante e deixa que a galera vai enchendo com as informações delas.
Este projeto Real Love Stories é assim. Você submete a sua história de amor via formulário, e a artista exibirá essas declarações de amor numa rua em Long Beach na California. Um projeto similar, também usando o amor como assunto, foi um projeto no Japão em que as mensagens eram exibidas via raio laser no céu à noite, na cidade de Yokohama. Bastava mandar a mensagem via o site para a pessoa a quem você quer fazer uma declaração de amor. O destinatário receberia um email com essa declaração na mesma hora da transmissão da sua mensagem no céu.
Ainda na questão do amor. O primeiro projeto desse tipo que eu vi, pré-internet, foi em Paris em que a artista (não me lembro o nome) projetava, a partir de um bateau-mouche sobre o Sena, anúncios de jornais pessoais (do tipo mulher jovem solteira procura...) sobre as margens do rio. Muito lindo o efeito, mas não só isso, o tema em questão é o espaço privado versus espaço público, leia-se, o espaço interno das emoções desnudadas no espaço público da cidade.
É esse tipo de coisa que estou buscando....
Participe do meu projeto em rede: IDCard - poste sua foto de identidade, ou de passaporte ou de qualquer outro documento.
Se você é membro do fotolog, é só clicar direto e postar. Se você não é membro do fotolog, é só enviar a foto para idcard_project@yahoo.com.
31.7.04
Guia do underground
Dando prosseguimento aos Clichês da arte contemporânea e à Escola Urbana do LLL, o Na Cara do Gol, traz um nobre complemento:
Guia do Underground:
(cliquem aí no link para ver a longa explanação de cada ítem)
1. Faça as coisas só no branco e preto [apoiadíssimo!! cor é brega!]
2. Fale mal do sistema. [senão não tem assunto, óbvio]
3. Fale, sempre que puder, em sexo, drogas e rock'n'roll [isso sempre. se for mulher então seja bem boca-suja e fale bastante putaria, isso deixa os homens ainda mais excitados]
4. Faça referências a outros ícones underground da HQ e cinema [no meu caso, da arte contemporânea, e se possível fale mal]
5. E, sobretudo, o mais importante de todos: não ganhe dinheiro de forma alguma com seus gibis!![com seus quadros, sob pena de ver o seu trabalho pendurado em algum ambiente do Casa Cor. Venda só para colecionadores ou você arrisca de ser mais um integrante do anonimato mundial]
Guia do Underground:
(cliquem aí no link para ver a longa explanação de cada ítem)
1. Faça as coisas só no branco e preto [apoiadíssimo!! cor é brega!]
2. Fale mal do sistema. [senão não tem assunto, óbvio]
3. Fale, sempre que puder, em sexo, drogas e rock'n'roll [isso sempre. se for mulher então seja bem boca-suja e fale bastante putaria, isso deixa os homens ainda mais excitados]
4. Faça referências a outros ícones underground da HQ e cinema [no meu caso, da arte contemporânea, e se possível fale mal]
5. E, sobretudo, o mais importante de todos: não ganhe dinheiro de forma alguma com seus gibis!![com seus quadros, sob pena de ver o seu trabalho pendurado em algum ambiente do Casa Cor. Venda só para colecionadores ou você arrisca de ser mais um integrante do anonimato mundial]
30.7.04
Os chinas estao ai
Fahrenheit 9/11 vale a pena, se você for um americano que mora no interior de Oklahoma e nunca leu um jornal na vida. Não tem nada ali que eu não soubesse, em linhas gerais, querendo dizer: a ligação da família Bush com a família real Saudita e com os Bin Laden, a ligação com o regime talibã por causa do oleoduto do Mar Cáspio, a tabelinha da Halliburton com a Enron, que o Saddam não tinha nada a ver com a história, etc. etc. O americano médio não tem idéia disso. O americano médio é comparável ao alemão médio na era de Hitler. Eles acreditam em qualquer coisa e escondem a realidade atrás de um patriotismo imbecil. Nos dois casos, o resultado foi/é um desastre.
Mas o que eu não tinha idéia, e isso me chocou, é que os Sauditas são donos de um pedaço consideravelmente grande da economia americana, lá pros muitos bilhões. E isso obviamente começa a explicar o rabo preso dos americanos. E eu não quero nem saber em como os chineses estariam manipulando os americanos também. Porque a gente fala mal dos americanos, mas são os chineses aqueles que serão os donos do mundo. Não precisa nem pagar pra ver, já é fato.
Mas o que eu não tinha idéia, e isso me chocou, é que os Sauditas são donos de um pedaço consideravelmente grande da economia americana, lá pros muitos bilhões. E isso obviamente começa a explicar o rabo preso dos americanos. E eu não quero nem saber em como os chineses estariam manipulando os americanos também. Porque a gente fala mal dos americanos, mas são os chineses aqueles que serão os donos do mundo. Não precisa nem pagar pra ver, já é fato.
29.7.04
It's not my fault!
No último mês tenho travado uma luta entre a minha mente, que quer parar de fumar, e o meu corpo, que não quer que eu pare de fumar. A mente sempre deve prevalecer, pois o bom senso suportados pela comunidade médica mundial e as estatísticas de morte por câncer de pulmão estão me dizendo, não, me convencendo, de que fumar mata. Sou uma pessoa razoavelmente inteligente, sei que faz mal mas mesmo assim o meu corpo clama por um cigarro a cada hora que passa. Às vezes a minha mente esquece de se lembrar de fumar, mas o meu corpo está lá rogando por aquele prazer.
Depois de ver O Informante, anos atrás, o filme me convenceu de que a culpa definitivamente não é minha. Sendo que metade das substâncias presentes no cigarro não estão escritas no rótulo, propositalmente ocultadas do público pelas companhias, não tenho como saber de antemão porque essa porcaria vai me viciar. Só sei que cresci numa casa em que meu pai fumava 3 maços por dia e isso já me fazia uma viciada desde a mais tenra idade. Tá explicado: a culpa também é do meu pai. Também sempre tive uma certa queda pelo homem de Marlboro. A culpa é dos bilhões de dólares gastos em propaganda que eu não pedi pra ver durante a novela das 8. Além disso sempre admirei a Marlene Dietrich envolta de fumaça, ela era tão sexy com aquele cigarro que sinalizava a sua independência e uma banana para as mulheres submissas. E eu queria ficar assim, independente. Me venderam uma imagem de dependência, isso sim. A culpa é da Marlene Dietrich.
A verdade é a seguinte: eu sou viciada em cigarro porque me permiti ficar viciada. Me recuso a submeter as minhas vontades ou decisões de consumo a fatores que não controlo, à mídia, ao lobby do fumo, ao meu pai, ou à Marlene Dietrich. Se eu escolhi a minha causa mortis precocemente, ninguém não tem nada a ver com isso. Não tenho como evitar um acidente de carro ou um assalto, mas morrer por causa de cigarro é de uma burrice extrema.
O Super Size Me, filme que vai estrear daqui a 3 semanas no Brasil, fala exatamente disso só que com o consumo de fast food. Será que as pessoas conseguem evitar de comer hamburger no McDonald's? Até que ponto a decisão de entrar na lanchonete é um ato induzido? Não seria a propaganda ostensiva do Ronald McDonald vendendo felicidade em forma de carne prensada (junto com um brinquedinho) a grande culpada pela obesidade e má saúde da população mundial? Será que somos tão "gado" que não conseguimos basear nossas escolhas de consumo em nossas próprias convicções ou precisamos de um sistema para legitimá-las? O pior é que McDonald's' vicia. O fígado do cara do documentário quase virou um purê depois de 30 dias comendo McD no café, almoço e jantar, e o médico que o acompanhou durante a experiência disse que nunca tinha visto coisa igual. Há crianças nos EUA com início de cirrose decorrente do consumo de fast food. Onde se começa a resolver o problema?
Só sei de uma coisa: fumar ou não fumar, comer hamburger ou não, depende inteiramente de mim. Não dá pra culpar o mundo, ou sair por aí botando disclaimers em todas as embalagens. "Olha, fumar mata, depois não diz que a gente não avisou. Olha, hamburger engorda, depois não sai por aí processando a gente, tá?". O pior é que essas empresas são mests em relações públicas e não avisam nada, ocultam os seus métodos de produção deixando a população de consumidores orfãos de informação sobre as quais basear suas escolhas. Você só pode basear escolhas em cima de conhecimento ou experiência, e se o seu conhecimento é baseado no que você vê na propaganda, coitado de você, problema seu. Eu só sei que nunca mais vou pisar num McDonald's porque não quero endossar aquela nojeira, sou uma consumidora em potencial a menos, o meu dinheiro eles não vão ver.
Já o cigarro, o estrago já está feito. O meu corpo continua patrocinando a Phillip Morris e a Souza Cruz embora minha mente me diz que essas não são as minhas convicções. Sei que comecei a fumar por causa de uma imagem, mas a culpa é minha por ter me apaixonado pela Marlene Dietrich. Antes tivesse me apaixonado por suas pernas, essas sim valeriam a pena imitar.
Depois de ver O Informante, anos atrás, o filme me convenceu de que a culpa definitivamente não é minha. Sendo que metade das substâncias presentes no cigarro não estão escritas no rótulo, propositalmente ocultadas do público pelas companhias, não tenho como saber de antemão porque essa porcaria vai me viciar. Só sei que cresci numa casa em que meu pai fumava 3 maços por dia e isso já me fazia uma viciada desde a mais tenra idade. Tá explicado: a culpa também é do meu pai. Também sempre tive uma certa queda pelo homem de Marlboro. A culpa é dos bilhões de dólares gastos em propaganda que eu não pedi pra ver durante a novela das 8. Além disso sempre admirei a Marlene Dietrich envolta de fumaça, ela era tão sexy com aquele cigarro que sinalizava a sua independência e uma banana para as mulheres submissas. E eu queria ficar assim, independente. Me venderam uma imagem de dependência, isso sim. A culpa é da Marlene Dietrich.
A verdade é a seguinte: eu sou viciada em cigarro porque me permiti ficar viciada. Me recuso a submeter as minhas vontades ou decisões de consumo a fatores que não controlo, à mídia, ao lobby do fumo, ao meu pai, ou à Marlene Dietrich. Se eu escolhi a minha causa mortis precocemente, ninguém não tem nada a ver com isso. Não tenho como evitar um acidente de carro ou um assalto, mas morrer por causa de cigarro é de uma burrice extrema.
O Super Size Me, filme que vai estrear daqui a 3 semanas no Brasil, fala exatamente disso só que com o consumo de fast food. Será que as pessoas conseguem evitar de comer hamburger no McDonald's? Até que ponto a decisão de entrar na lanchonete é um ato induzido? Não seria a propaganda ostensiva do Ronald McDonald vendendo felicidade em forma de carne prensada (junto com um brinquedinho) a grande culpada pela obesidade e má saúde da população mundial? Será que somos tão "gado" que não conseguimos basear nossas escolhas de consumo em nossas próprias convicções ou precisamos de um sistema para legitimá-las? O pior é que McDonald's' vicia. O fígado do cara do documentário quase virou um purê depois de 30 dias comendo McD no café, almoço e jantar, e o médico que o acompanhou durante a experiência disse que nunca tinha visto coisa igual. Há crianças nos EUA com início de cirrose decorrente do consumo de fast food. Onde se começa a resolver o problema?
Só sei de uma coisa: fumar ou não fumar, comer hamburger ou não, depende inteiramente de mim. Não dá pra culpar o mundo, ou sair por aí botando disclaimers em todas as embalagens. "Olha, fumar mata, depois não diz que a gente não avisou. Olha, hamburger engorda, depois não sai por aí processando a gente, tá?". O pior é que essas empresas são mests em relações públicas e não avisam nada, ocultam os seus métodos de produção deixando a população de consumidores orfãos de informação sobre as quais basear suas escolhas. Você só pode basear escolhas em cima de conhecimento ou experiência, e se o seu conhecimento é baseado no que você vê na propaganda, coitado de você, problema seu. Eu só sei que nunca mais vou pisar num McDonald's porque não quero endossar aquela nojeira, sou uma consumidora em potencial a menos, o meu dinheiro eles não vão ver.
Já o cigarro, o estrago já está feito. O meu corpo continua patrocinando a Phillip Morris e a Souza Cruz embora minha mente me diz que essas não são as minhas convicções. Sei que comecei a fumar por causa de uma imagem, mas a culpa é minha por ter me apaixonado pela Marlene Dietrich. Antes tivesse me apaixonado por suas pernas, essas sim valeriam a pena imitar.
24.7.04
Falta de imaginação
Os EUA alegam não ter conseguido prever os ataques de 11/9 por falta de imaginação.
Se burocratas tivessem alguma imaginação não seriam burocratas.
De vez em quando um artista que viaje na maionese pode ser útil na sociedade...
Se burocratas tivessem alguma imaginação não seriam burocratas.
De vez em quando um artista que viaje na maionese pode ser útil na sociedade...
22.7.04
Art people are tired
Assino várias newsletters de revistas de arte, mas nenhuma, nenhuma mesmo é tão divertida quanto a da Flash Art, aliás, uma das melhores revistas de arte no mundo todo. O editor da revista, Giancarlo Politi, de Milão envia newsletters a partir do seu email pessoal com deliciosos comentários sarcásticos e ao mesmo tempo precisos e sábios sobre os acontecimentos do mundo da arte. Cito aqui um trecho engraçado sobre porque a arte contemporânea cansa quem gosta de arte:
Art People Are Tired
"So enough, enough please, dear curators and organizers, of pursuing exhibitions in diverse, inaccessible, far-away spaces, reachable only on foot in the burning sun or the pouring rain. Why should visiting an art exhibition necessarily involve suffering and pain? Perhaps it stems from a desire for the exhibition to be like the tired, worn out, depressed and prematurely aged art-worlders? It is an art world from which the joy, the gaiety, the pleasure, and (why not?) the happiness and youthful enjoyment of the participants are disappearing, to be replaced with ugliness (for men, women, and even children), discomfort, tiredness, and boredom.
This serious and suffering audience of 1000 people - this Barnum circus that seems as much like Lourdes as an art exhibition - whom one meets at Manifesta, at Documenta, at the Venice Biennale, makes you sad, and makes you look forward to the moments of separation and pause."
Art People Are Tired
"So enough, enough please, dear curators and organizers, of pursuing exhibitions in diverse, inaccessible, far-away spaces, reachable only on foot in the burning sun or the pouring rain. Why should visiting an art exhibition necessarily involve suffering and pain? Perhaps it stems from a desire for the exhibition to be like the tired, worn out, depressed and prematurely aged art-worlders? It is an art world from which the joy, the gaiety, the pleasure, and (why not?) the happiness and youthful enjoyment of the participants are disappearing, to be replaced with ugliness (for men, women, and even children), discomfort, tiredness, and boredom.
This serious and suffering audience of 1000 people - this Barnum circus that seems as much like Lourdes as an art exhibition - whom one meets at Manifesta, at Documenta, at the Venice Biennale, makes you sad, and makes you look forward to the moments of separation and pause."
21.7.04
96 horas de chuva.
Choveu durante 96 horas consecutivas no Rio de Janeiro. Hoje finalmente vemos uma nesga de sol.
Quantos barracos foram inundados nestes dias? Quantos deslizaram pela ribanceira abaixo? A gente sabe que quando chove nessa cidade, chove pesado, mesmo assim, as pessoas não se previnem, as prefeituras não fiscalizam as construções para que possam ficar em pé em caso de tempestade. É um desolamento só. E agora com o céu abrindo no horizonte, quem se importa? É tudo festa de novo, tudo fica lindo, colorido, a vida é tão leve livre e solta. Até a próxima tempestade....
Quantos barracos foram inundados nestes dias? Quantos deslizaram pela ribanceira abaixo? A gente sabe que quando chove nessa cidade, chove pesado, mesmo assim, as pessoas não se previnem, as prefeituras não fiscalizam as construções para que possam ficar em pé em caso de tempestade. É um desolamento só. E agora com o céu abrindo no horizonte, quem se importa? É tudo festa de novo, tudo fica lindo, colorido, a vida é tão leve livre e solta. Até a próxima tempestade....
16.7.04
JG Ballard
Extraído da entrevista de JG Ballard sobre seu último romance "Millenium People":
"My real fear is that boredom and inertia may lead people to follow a deranged leader with far fewer moral scruples than Richard Gould, that we will put on jackboots and black uniforms and the aspect of the killer simply to relieve the boredom."
"Whether the internet or any other technological marvel can halt the slide into boredom and conformism I seriously doubt. I suspect that (as I pointed out in Super-Cannes) the human race will inevitably move like a sleepwalker towards that vast resource it has hesitated to tap - its own psychopathy. This adventure playground of the soul is waiting for us with its gates wide open, and admission is free."
Arrepios.
Leia a entrevista do The Guardian, vale a pena. Fala muito sobre arte, sobre a astúcia dos artistas e a falta de astúcia dos escritores, na opinião dele.
"My real fear is that boredom and inertia may lead people to follow a deranged leader with far fewer moral scruples than Richard Gould, that we will put on jackboots and black uniforms and the aspect of the killer simply to relieve the boredom."
"Whether the internet or any other technological marvel can halt the slide into boredom and conformism I seriously doubt. I suspect that (as I pointed out in Super-Cannes) the human race will inevitably move like a sleepwalker towards that vast resource it has hesitated to tap - its own psychopathy. This adventure playground of the soul is waiting for us with its gates wide open, and admission is free."
Arrepios.
Leia a entrevista do The Guardian, vale a pena. Fala muito sobre arte, sobre a astúcia dos artistas e a falta de astúcia dos escritores, na opinião dele.
15.7.04
Saldo das expos
Fui na inauguração das duas: a da galera dos anos 80 e a da galera dos anos 00. A melhor? não sei dizer. Gostei de ver que quem participou do grande evento de 1984 finalment aprendeu a fazer arte, pois algumas pinturas lá dos anos 80, embora promissoras, eram muito ruins. Mas tudo bem, só Picasso e outros raros casos foram gênios aos 20 anos. O importante é reconhecer as sementes do bom talento de um artista nessa idade tenra. E é muito interessante ver o percurso de um artista ao longo de 20 anos, seus erros e acertos, as escolhas feitas por x ou y material, as imagens e sínbolos que caíram e outras novas que eram tímidas na juventude e passaram a ser dominantes nos dias de hoje.
Na exposição do Parque Lage, é exatamente a energia descontrolada dos jovens que se vê. Não importa tanto a qualidade, realmente, o que importa mesmo é o tesão qu se tem pela coisa. Tesão nos novos existe de sobra, mas incrivelmente achei tudo numa escala super intimista. A maioria dos trabalhos era de pequeno formato, dava até pra carregar debaixo do braço. Fora algumas performances, que continuo achando o ponto fraco da arte contemporânea, e poucas instalações, grande parte dos trabalhos era de parede ou cabia num pedestal. Obviamente tinha muita porcaria mas alguns nome promissores já começam a surgir: Felipe Barbosa ( o "golden boy" da arte contemporânea, esse quase não conta, já é unanimidade), Eduardo Costa, Eduardo Berliner, Lúcia Laguna (uma das melhores pintoras dessa leva, põe a Beatriz Milhazes no chão), Márcia Lisboa, Amalia Giacomini, Marco Antonio Portela. Pode ser que numa segunda visita destaque outros. Mas atenção a estes nomes. Eles podem ser o futuro da nossa arte brasileira.
MAS, vale ressalvar que embora 140 artistas novos tenham participado desta exposição, isto não significa que sejam os únicos 140 ou os melhores. COnheço muitos, mas muitos artistas jovens por aí que não estavam lá mas dão de 10 em alguns trabalhos que vi expostos. A galera do Figura, do Projeto Subsolo por exemplo não estavam lá, mas mereciam. Atenção a estes também, lição de que o Parque Lage não ocupa mais o centro do universo da arte contemporânea, embora seja um polo significativo, mas apenas mais um.
Na exposição do Parque Lage, é exatamente a energia descontrolada dos jovens que se vê. Não importa tanto a qualidade, realmente, o que importa mesmo é o tesão qu se tem pela coisa. Tesão nos novos existe de sobra, mas incrivelmente achei tudo numa escala super intimista. A maioria dos trabalhos era de pequeno formato, dava até pra carregar debaixo do braço. Fora algumas performances, que continuo achando o ponto fraco da arte contemporânea, e poucas instalações, grande parte dos trabalhos era de parede ou cabia num pedestal. Obviamente tinha muita porcaria mas alguns nome promissores já começam a surgir: Felipe Barbosa ( o "golden boy" da arte contemporânea, esse quase não conta, já é unanimidade), Eduardo Costa, Eduardo Berliner, Lúcia Laguna (uma das melhores pintoras dessa leva, põe a Beatriz Milhazes no chão), Márcia Lisboa, Amalia Giacomini, Marco Antonio Portela. Pode ser que numa segunda visita destaque outros. Mas atenção a estes nomes. Eles podem ser o futuro da nossa arte brasileira.
MAS, vale ressalvar que embora 140 artistas novos tenham participado desta exposição, isto não significa que sejam os únicos 140 ou os melhores. COnheço muitos, mas muitos artistas jovens por aí que não estavam lá mas dão de 10 em alguns trabalhos que vi expostos. A galera do Figura, do Projeto Subsolo por exemplo não estavam lá, mas mereciam. Atenção a estes também, lição de que o Parque Lage não ocupa mais o centro do universo da arte contemporânea, embora seja um polo significativo, mas apenas mais um.
13.7.04
Posição 2004
Paralela à mostra no CCBB, abre no Parque Lage a Posição 2004 amanhã, uma espécie de Woodstock da arte contemporânea feita exatamente nos moldes da histórica exposição de 20 anos atrás. São 140 artistas da Geração 00, a primeira geração de artistas contemporâneos a ter retrospectiva garantida daqui a 20 anos, quando deixarão de ser contemporâneos e serão algum rótulo que a história ainda não criou. Fiquei de fora dessa, obviamente, porque não frequento o Parque Lage nem sou amiga do Fernando Cochiaralle, mas tem muita gente boa (amigos meus inclusive) expondo.
Vale a pena ver, só até o dia 18/07. E no domingo o pessoal do Galaxi vai fazer o piscinão do Parque Lage. Piscinão, heim!
Vale a pena ver, só até o dia 18/07. E no domingo o pessoal do Galaxi vai fazer o piscinão do Parque Lage. Piscinão, heim!
Geração 80
Abre hoje no CCBB do Rio a exposição "Onde está você, geração 80?", que reavalia a produção dos artistas que participaram do evento Como Vai Você, Geração 80 ?, ocorrido na Escola de Artes Visuais do Parque Lage há 20 anos.
Composta por quase 180 obras, a mostra apresenta a produção dos artistas do movimento de 1984, que valorizaram a diversidade da linguagem aliada à experimentação conceitual, estabelecendo, assim, os fundamentos da ação artística contemporânea.
Ao entrar na primeira sala da exposição, vê-se pinturas de gosto bastante duvidoso, até ruins, como pinturas de jovens constumam ser. Mas não sem energia. O que se vê é um total despudor em relação à arte. Naquela época expunham tudo, em escala gigante, não importava o quê, pintura, colagem, qualquer coisa valia. Depois do rigor conceitual dos anos 70 e com as Diretas Já podia-se mesmo só esperar um certo espírito de libertação nas pessoas, e por consequencia na arte.
Daí isso ter virado um fenômeno mercadológico já é outra história. Os novíssimos artistas daquela época quase só faziam pintura, e não tem coisa melhor para o mercado de arte do que pintura: é valioso e transportável, ao contrário dos trambolhos de instalação e esculturas que se produzem hoje em dia (e que já se produziam naquela época também).
Tá, o espírito era o máximo, mas passei por aquelas salas e percebi pouquíssimos clássicos. Tudo me pareceu muito datado, como se os anos 80 fosse o último suspiro do século 20. Mas talvez tenha achado datado porque sou cria dos anos 90, das crises de representação frente às tecnologias digitais e de produção e distribuição ainda mais massificadas. Politicamente falando, vivemos uma democracia nova com um presidente que, no meio do mandato, já pede desculpas pelo que não fez, com um megalômano chefiando o mundo e com a internet nos tomando tempo e dinheiro, e gerando novos caminhos. Entramos numa era de diálogo intenso entre máquinas.
Sei lá, acho essa geração 80 um pouco naïve, mas não menos forte. Nós hoje somos menos ingênuos, mas muito mais temerosos de tudo. Parece que o mundo nos engoliu, enquanto há 20 anos, eles ainda estavam engolindo o mundo...
Composta por quase 180 obras, a mostra apresenta a produção dos artistas do movimento de 1984, que valorizaram a diversidade da linguagem aliada à experimentação conceitual, estabelecendo, assim, os fundamentos da ação artística contemporânea.
Ao entrar na primeira sala da exposição, vê-se pinturas de gosto bastante duvidoso, até ruins, como pinturas de jovens constumam ser. Mas não sem energia. O que se vê é um total despudor em relação à arte. Naquela época expunham tudo, em escala gigante, não importava o quê, pintura, colagem, qualquer coisa valia. Depois do rigor conceitual dos anos 70 e com as Diretas Já podia-se mesmo só esperar um certo espírito de libertação nas pessoas, e por consequencia na arte.
Daí isso ter virado um fenômeno mercadológico já é outra história. Os novíssimos artistas daquela época quase só faziam pintura, e não tem coisa melhor para o mercado de arte do que pintura: é valioso e transportável, ao contrário dos trambolhos de instalação e esculturas que se produzem hoje em dia (e que já se produziam naquela época também).
Tá, o espírito era o máximo, mas passei por aquelas salas e percebi pouquíssimos clássicos. Tudo me pareceu muito datado, como se os anos 80 fosse o último suspiro do século 20. Mas talvez tenha achado datado porque sou cria dos anos 90, das crises de representação frente às tecnologias digitais e de produção e distribuição ainda mais massificadas. Politicamente falando, vivemos uma democracia nova com um presidente que, no meio do mandato, já pede desculpas pelo que não fez, com um megalômano chefiando o mundo e com a internet nos tomando tempo e dinheiro, e gerando novos caminhos. Entramos numa era de diálogo intenso entre máquinas.
Sei lá, acho essa geração 80 um pouco naïve, mas não menos forte. Nós hoje somos menos ingênuos, mas muito mais temerosos de tudo. Parece que o mundo nos engoliu, enquanto há 20 anos, eles ainda estavam engolindo o mundo...
8.7.04
Projeto Figura
Semana passada houve mais uma exposição do Projeto Figura no Rio de Janeiro. É um projeto que faz exposições que duram somente 1 dia e exibem jovens artistas contemporâneos. Geralmente, as exposições são feitas em casas antigas e abandonadas, galpões, ou na residência de alguma patrono que decide ceder o seu espaço à causa nobre da arte contemporânea. É uma maneira de burlar o sistema comercial das galerias ou institucional dos museus para exibir arte novíssima. E funciona super bem, as exposições chegam a ter 300 pessoas por edição. Um sucesso.
O evento já chegou à 6a. edição em menos de 2 anos, e é bastante cobiçado por artistas jovens no Rio. É claro que eu já participei do evento, senão não estaria fazendo um comercial para as minhas amigas artistas Claudia Tavares e Dani Soter, as idealizadoras e organizadoras do projeto.
Vejam ai o meu trabalho exposto no projeto.
O evento já chegou à 6a. edição em menos de 2 anos, e é bastante cobiçado por artistas jovens no Rio. É claro que eu já participei do evento, senão não estaria fazendo um comercial para as minhas amigas artistas Claudia Tavares e Dani Soter, as idealizadoras e organizadoras do projeto.
Vejam ai o meu trabalho exposto no projeto.
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