28.4.04

Arte, Crime e Patrocínio

Luta por reconhecimento ressuscita antiga polêmica: o que é arte, afinal?

por Alexandre Cruz Almeida

Artigo publicado na Tribuna da Imprensa no dia 28 de abril de 2004.

Um artista plástico espalha caixas pretas pelo metrô de Nova York, gera pânico e acaba preso. Arte? Ou crime? Outro, pinta de vermelho um iceberg. Arte? Ou futilidade? No Brasil, uma jovem cria obras baseadas em buscas aleatórias no Google. Arte? Talvez, mas não de acordo com o Ministério da Cultura, que não prevê patrocínios para Cultura Digital.


Pânico no metrô


Em dezembro, Clinton Boisvert, estudante de arte de 25 anos, espalhou 37 caixas de papelão pretas pelas estações de metrô de Nova York. O pânico foi tamanho que o metrô foi fechado por várias horas e Boisvert acabou preso.


As acusações são de conduta desordeira e reckless endangerment, algo como colocar pessoas em risco sem se preocupar com as conseqüências. Boisvert está tentando se proteger sob a Primeira Emenda, que estabelece a liberdade de expressão.


Mas será que expor 37 caixas pretas dizendo "Fear" no metrô é um direito constitucionalmente garantido? Julie Tilden, advogada especializada na Primeira Emenda, argumenta que a liberdade de expressão não é protegida quando causa medo, pois medo geralmente inclui ameaça de violência física e a Emenda protege somente expressão, não conduta.


Por outro lado, o valor da arte está em ser provocativa, provocativa inclusive de medo ou ansiedade. E, conclui ela, uma arte que não seja nem ao menos um pouco perturbadora não merece ser chamada de arte. Entretanto, em um exemplo clássico do Direito, ninguém tem a liberdade de exprimir a palavra "fogo" em altos brados em um cinema lotado. Boisvert não fez nada de muito diferente.


A artista plástica brasileira Isabel Löfgren salienta que a cobertura da imprensa foi tendenciosa ao enfatizar que ele espalhou" as caixas quando, na verdade, ele "expôs" as caixas. Porém, se os usuários do metrô de Nova York tivessem sido informados de que aquelas caixas estavam ali expostas - ao invés de cuidadosamente colocadas por pessoas com objetivos sinistros e insondáveis - não teriam entrado em pânico e nem perdido o dia de trabalho. A School of Visual Arts, onde Boisvert estudava, deu a ele nota máxima no semestre.


O iceberg e os peixes


Mês passado, Marc Evaristti, artista plástico dinamarquês, utilizou 3 mil litros de tinta para tingir de vermelho um iceberg de 900 metros quadrados, na Groenlândia. Uma vez concluído o trabalho, Evaristti declarou: "É tão poético. Parece uma ervilha vermelha."


A cobertura jornalística do evento fez o que pôde para desacreditá-lo. Muitas matérias enfatizaram que todo o trabalho durou apenas duas horas. Mas será que esse é um critério relevante para se definir o que é arte?


Evaristti criou uma nova experiência estética. Imbuído de um refinado senso artístico (e de oportunidade), ele inseriu uma cor em um ambiente onde ela simplesmente não existia, criando assim um efeito visual novo, inédito e de tirar o fôlego.


Outra estratégia para desacreditar Evaristti na imprensa foi mencionar sua exposição anterior: uma série de liquidificadores, com peixinhos dourados nadando dentro. Visitantes poderiam, se quisessem, ligar os aparelhos e matar os peixes. Evaristti afirmou que seu objetivo era propor um dilema ético, de vida ou morte, às pessoas, "um protesto contra o cinismo e a brutalidade do mundo em que vivemos".


Um visitante cínico e brutal, entretanto, apertou o botão e matou dois peixes. O museu foi prontamente denunciado por uma organização de proteção aos animais e, pelo resto da exposição, os liquidificadores tiveram que ficar desligados. O caso acabou indo a julgamento, pois o museu se recusou a pagar a multa, alegando que o objetivo da arte era justamente desafiar os conceitos de certo ou errado.


Veterinários e até funcionários da fábrica de liquidificadores testemunharam que os peixes morreram instantaneamente. Como não houve "sofrimento prolongado", o juiz absolveu o museu da acusação de crueldade aos animais.


Privacidade na era da internet


A carioca Isabel Löfgren, de 29 anos, tem utilizado a arte para explorar questões como privacidade e identidade na era da internet. Atualmente, seu trabalho pode ser conferido na exposição Imagem: Código, na Galeria Artexarte, em Buenos Aires, até 17 de julho. Uma das obras expostas, "[search:"webcam" filetype:jpg] showing 1000 of 59,080 results", é uma impressão fotográfica sobre alumínio, de 250 centímetros de diâmetro, suspensa ao redor de uma pilastra.


Dos dois lados da faixa metálica, milhares de pequenas imagens retiradas de webcams por todo o mundo. As imagens foram obtidas através de buscas no Google, daí o título da peça.


Para ver as imagens do lado de dentro da faixa, o visitante precisa se abaixar e entrar no círculo. Um lembrete bem concreto que, ao observar aquelas imagens, estamos de fato entrando na intimidade de milhares de pessoas. Uma das características mais marcantes do trabalho de Isabel é a impossibilidade de transmiti-lo por qualquer outro meio. Só estando lá pessoalmente. O impacto tanto acontece de longe, ao você ver o conjunto da obra, quanto de perto, quando você se perde naquela enormidade de fotos uma após a outra, tantas vidas, tantas histórias.


O professor João Wesley, da Universidade Federal do Espírito Santo, afirma que a presença visual obtida por meio de "rigoroso sistema de busca e organização" aciona o "sujeito em estado de suspensão fragmentária" que hoje existe na internet. "Antes era o verbo que criava, agora," diz ele "(são) milhões de bits circulando mundialmente próximo à velocidade da luz."


Lei só patrocina velha arte


Arte ou futilidade? Arte ou crime? Talvez a pergunta mais importante seja outra: patrocínio ou não? Se Isabel estava contando com alguma ajuda financeira, pode esquecer. Em fevereiro, o MinC (Ministério da Cultura) baixou uma portaria definindo as novas regras para patrocínio da Lei Rouanet. Cultura digital não foi incluída, assim como outras formas de artes mais vanguardistas, como arte transgênica ou telemática e nanoarte.


Isabel faz questão de ressaltar que o problema não é a validade ou não dessas novas formas de arte, pois quem determina isso não é o governo. O problema é que, justamente por dependerem de tecnologia, trabalhos com Cultura Digital podem ser custosos.


"Como convencer um empresário a patrocinar uma forma de arte que o governo não considera válida?", pergunta ela. Ironicamente, o próprio Cláudio Prado, coordenador da área de Cultura Digital do MinC, concorda que essas formas de arte são válidas e deveriam ter sido incluídas, mas não o foram por entraves burocráticos.


Ou seja, o MinC reconhece que a Cultura Digital existe na hora de criar um setor só para ela, mas não na hora de permitir que ela seja patrocinada. Fica a pergunta: o que será que fazem, o dia todo, os funcionários desse departamento?

O site Canal Contemporâneo, da artista plástica Patrícia Canetti, está promovendo um abaixo-assinado pedindo pela inclusão da arte-tecnologia na Lei Rouanet. Você pode participar clicando em http://www.canalcontemporaneo.art.br/blog/

Sem esconder a irritação, Isabel desabafa:

"Resumindo: todas as minhas idéias de pedir patrocínio para empresas de tecnologia foram por água abaixo por causa da inoperância de dois ou três funcionários públicos sentados numa sala empoeirada em Brasília, navegando na internet às custas de um salário pago pelo meu, o seu, o nosso imposto."